quinta-feira, agosto 28, 2008

Histórias

Detesto o Metro de Lisboa. Não é novidade, já o tinha dito aqui mais do que uma vez. Acontece que é no Metro que me ocorrem os pensamentos mais parvos e mais profundos também. Talvez porque as viagens diárias de Metro são os períodos em que estou mais tempo a olhar para as pessoas que me rodeiam, em vez do ecrã do computador. É no Metro que dou por mim cheia de vontade de escrever sobre a senhora do banco da frente que tem o cabelo a tapar uma parte da cara porque parece magoada (violência?). Ou sobre o rapaz de fato e gravata que apanha o mesmo Metro à mesma hora para o mesmo sítio que eu, todos os dias. Ou sobre um outro que veste preto e ouve heavy metal aos berros, tão aos berros que tenho de pôr os meus phones para não ouvir.
É no metro que me confronto todos os dias com a realidade. Desde a senhora toda arranjada, pintada e vaidosa, que faz cara de enjoada se alguém se encosta a ela, até à velhinha que anda sempre de muleta no braço esquerdo enquanto a mão direita pede uma moeda para "uma ajudinha".
Das 7h38 até às 7h56, passam-me tantas coisas pela cabeça que dava para escrever um livro. Um diário de bordo, quase, com todas as histórias que imagino à volta de cada pessoa que se cruza comigo naquele paralelipípedo andante que me dá vómitos.
Podia até chegar à redacção e escrever sobre isso, afinal, é a realidade, e os jornalistas trabalham a realidade. Mas em vez disso escrevo sobre acidentes de avião, assaltos ou explosões, incêndios ou furacões. Em vez disso falo sobre as últimas medidas do Governo para combater a criminalidade. Ou sobre as eleições nos EUA. Ou sobre as subidas e descidas da bolsa.

Ao fim da tarde, o cenário é outro. Já não quero olhar para ninguém porque já nem vejo nada à frente, depois de um dia inteiro a olhar para o ecrã. Só me apetece deambular pela rua, devagar, sem olhar para lado nenhum, numa espécie de vagabundagem despreocupada, quase libertadora. Ao fim da tarde já não estou capaz de escrever grandes histórias.
Na verdade, se calhar nem era capaz de escrever nada. Mas imagino-as todas na minha cabeça, do princípio ao fim. Um dia, quem sabe.

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