quarta-feira, outubro 08, 2008

A minha aldeia

Da minha aldeia vê-se o céu
E a lua cheia e as estrelas
Vê-se o sol a nascer atrás da serra, nas manhãs frias de Inverno em que apetece ficar enrolada nos lençóis de flanela onde me deitei ontem, depois de um beijo ao pai e à mãe. 
Da minha aldeia só não se vê o mar
Mas também...de que interessa o mar a quem vive da terra?

Da minha aldeia ouve-se tudo...
Até a Morte: fala através dos cães que uivam no silêncio da noite, do sino que toca molemente, da coruja que voa para os lugares que Ela quer.
As pessoas da minha aldeia sentem a Morte porque têm tempo para pensar Nela. Porque têm tempo para A ouvir e para A ver chegar. Por isso, tudo tem mais significado: os sonhos, os vidros que caem e se partem no chão, os pressentimentos, as coincidências, as datas dos acontecimentos.

Na minha aldeia vê-se o céu negro, que contrasta com as estrelas brilhantes, prateadas, lá em cima. Vê-se a lua a iluminar as ruas quase todas... 
As pessoas da minha aldeia também sentem a Vida. E sabem calcular o efeito da lua na Vida e dizer o calendário de trás para a frente sem o ver. 

Na minha aldeia as pessoas não sabem ler. As pessoas mais velhas não sabem ler e assinam em cruz. As que mais sabem de tudo não sabem de nada. Não sabem que aqui, na cidade, as pessoas não olham umas nas outras quando passam na rua, nem as "salvam". Na minha aldeia cumprimentar uma pessoa é salvá-la. Porque será?...

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