quarta-feira, agosto 18, 2010

back to school

fui feliz aqui. dizem que não devemos voltar ao sítio onde já fomos felizes, mas a teoria não funciona comigo. gosto de voltar. de sorrir quando olho para trás e penso no que fui. no que fiz.

com as mãos sujas de terra, ajudei a arranjar estes jardins, nos intervalos entre a lição de matemática e a de estudo do meio. estas, mais a de língua portuguesa e a de gramática (não me lembro de mais), todas dadas pela mesma professora. éramos uns 20, da primeira à quarta classe. tudo na mesma sala. era à vez. ora iam os 4 alunos da 4ªa classe, ora iam os 1o alunos da 3ª, e assim sucessivamente. todos se juntavam à volta da mesa da professora (que tinha sempre o police por baixo, o cão beige com ar de poucos amigos) e ouviam a lição, com os olhos postos nos livros (ou a fazer macacadas pelas costas só para fazer rir o colega e a coisa dar pro torto).

foi assim que aprendi tudo. à volta de uma mesa com um cão por baixo. às vezes pisavamos-lhe o rabo e era um ai jesus. para as faltas de atenção estava lá a régua. ou a cana. esta sim, experimentei. mas nunca fui muito de armar confusão. era até calada demais. ainda hoje.

nos pátios das traseiras fiz todas as brincadeiras de que me lembro. jogava às semanas (era assim que se chamava?), ao aqui vai alho, ao piolho, ao mata, ao berlinde, à apanhada e às escondidas. saltava à corda, ao elástico. será que as crianças de hoje sabem do que estou a falar?
tínhamos muito pouca coisa. um quadro preto, apagador, giz, uns esferovites para pendurar os desenhos, um aquecedor para o inverno e uma ventoínha para o verão. tínhamos lá ao fundo, encostado à parede, um armário com alguns livros, mas não serviam muito. não havia computador, quadros interactivos, internet, televisão, biblioteca (digna desse nome) e até as casas de banho deixavam muito a desejar. tínhamos pouca coisa. mas tínhamos uma professora, fazíamos árvore de Natal, tínhamos pacotinhos de leite à borla e estávamos a dez minutos de casa, a pé. e saíamos todos os anos no dia da espiga para o campo (já estávamos no campo...), e fazíamos a fogueira de são martinho para assar as castanhas e a fogueira do são joão para saltar. fazíamos os nossos próprios fatos de carnaval, com papel crepe, plástico, cartão, tecido e muita imaginação. tínhamos pouca coisa, mas éramos ricos sem saber.

guardo boas memórias daqui. só boas memórias, confesso. vá lá, lembro-me de alguns dissabores, algumas discussões com esta ou aquela, mas no geral só me lembro de coisas que me fazem sorrir. até o police me faz sorrir, com aquele ar de mau mas com vontade de festas. tinha mau feitio. nunca estava muito feliz...não sei porquê. já morreu, tal como a professora. mas a escola continua lá. aberta, ainda. não sei é por quanto tempo...

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