sábado, abril 11, 2009

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Tenho saudades dele.
Da forma como me falava, como me chamava, como me tratava. Como se eu fosse o seu segundo maior tesouro. O seu segundo amor. O primeiro, já se sabe, era o meu pai. Talvez a hierarquia até nem fosse esta, mas estava lá perto. Especialmente nos últimos tempos, em que a sua grande paixão - o trabalho - estava já no último lugar da lista de prioridades. Não vale a pena trabalhar tanto, se afinal um dia isso não vale de nada. Ainda assim, o trabalho engrandece, torna-nos melhores. Bem sei.

Quando eu era criança, havia ali uma relação de amor-ódio, reconheço. Não gostava dele por um milhão de razões que não vale a pena contar. No entanto, foi ele quem me ensinou a escrever direito, a contar, a fazer contas...a prova dos 9...fiquei expert na prova dos 9 à custa dele. Era ele quem me fazia companhia depois da escola, quem via os meus trabalhos de casa, quem me ralhava se fazia mal e me ensinava a fazer bem.

Era ele que me apanhava a dançar sozinha no meio da sala, no meio das minhas fantasias de criança. Também era ele quem me acordava às 7 da manhã de domingo com o seu rádio (que foi o meu rádio tantas vezes) nas alturas, porque não ouvia bem. Que raiva, pensava eu. Não imaginava que um dia iria ter saudades dessas pequenas coisas, até daqueles episódios em que só me apetecia bater-lhe por ser tão inconveniente à frente das outras pessoas a falar bem de mim, como se eu fosse a maior do mundo. Até era, mas só do mundo dele.

Fez-me prometer um monte de coisas antes de morrer. Pensava ele que, de cada vez que eu ia, já não iria vê-lo vivo quando voltasse. Nunca era assim, ele estava cá sempre quando eu voltava, sempre a chamar por mim ou pelo seu rapaz. Ou por alguém, porque ele precisava de toda a gente, embora não quisesse reconhecê-lo por vezes.
Ele estava cá sempre, até que um dia deixou de estar. Mesmo assim, parece que esteve mesmo à minha espera antes de ir embora. Não sei se era ele ainda ali, naquele corpo ainda quente, imóvel, os olhos cristalizados, o coração ainda a bater fraco. Se era ele, ainda me ouviu, horas antes de partir. Ouviu-me chorar e prometer que vou fazer tudo o que ele me pediu tantas vezes. E que por isso podia ir descansado. E depois disso, ele foi.

Já passaram quase dois meses e ainda não tinha conseguido escrever sobre isto. Não sei muito bem porquê, mas não foi por falta de vontade. Chorar, ainda choro. Pensar, ainda penso. Saudades, sinto cada vez mais. Mas é normal, eu sei. E tinha de ser, porque afinal ninguém é imortal, nem aquelas pessoas que parecem de ferro, como ele.
Quero acreditar que agora ele está melhor e está a olhar por mim, a ver os meus sucessos e a dizer-me baixinho que os insucessos só servem para nos fazer crescer. Se assim for, aceito.

PS: "We're meant to lose the people we love. How else would we know they're important to us?"
in The Curious Case of Benjamin Button

3 comentários:

Z disse...

Lamento muito a tua perda. Um beijinho.

Fátima disse...

=(

Fernando Duarte disse...

Gostei muito do que escreves-te..mesmo muito.. fez-me relembrar de uma forma saudosa, as conversas com ele.. as "discussões" sobre o futebol..
a satisfação que ele tinha em me chatear quando o fcp perdia...lol..enfim, toda uma série de coisas que ficam pra sempre na memória!
temos de pensar que está melhor e sem sofrimento...
beijinho grande pra ti;)