Tenho sonhado com ele.
Nos dias em que tudo corre mal, em que os nervos andam à flor da pele e me sinto fora de mim. Nesses dias, nessas noites, sonho com ele. É tão real que parece que sinto o cheiro dele, é tão real que acordo a chorar, é tão real que podia ser verdade. Aconteceu uma vez e eu achei normal, mas quando voltou a acontecer comprovei a teoria. Ele aparece nos meus sonhos apenas quando tenho aquela vontade louca de desaparecer. Se calhar é para me dizer que vale a pena ficar por cá...que os problemas vêm e vão. Como nós.
Nos meus sonhos, ele está vivo, afinal. Morreu, sim, mas é como se ressuscitasse, por milagre, passados todos estes meses. Esteve não sei muito bem onde a fazer não sei muito bem o quê, mas está vivo, e isso é só o que importa.
Nesses sonhos, volto a ouvi-lo chamar-me "nha nina" ou "mô amor", como fazia sempre que me queria ao pé dele para dizer os disparates do costume, ou para me pedir o que quer que fosse. Pode parecer estranho, mas essas são mesmo as expressões que mais sinto falta de ouvir da boca dele. É uma coisa tão pequena a que eu não dava valor nenhum, até achava lamechas e infantil, mas hoje dava tudo para que me voltassem a chamar assim com aquela ternura.
E isto agora pode parecer estúpido porque...sim, muitas vezes desejei que ele morresse. Admito isso porque, enfim, é a verdade. Estava a tornar-se um fardo demasiado pesado, não tanto para mim, mas para eles. E por vezes fui cruel, acho eu. Fomos todos um pouco. E ele também foi. Por isso considero que estamos todos perdoados.
Quando vou ao cemitério e deixo flores na campa dele (roxas, para ele saber que fui eu), não sinto nada. Ou sinto muito pouco. Acho que até sinto mais quando visito as campas de outras pessoas conhecidas, amigas ou vizinhas, que entretanto morreram e me deixaram saudades. Se calhar é porque não o sinto ali. Para mim, ele não está ali. Está onde? Não sei dizer.
Se fecho os olhos e quero chorar (chorar alivia), penso nele na cama do hospital na última noite que o vi e que ele não me viu. Quer dizer, os médicos disseram que ele via e ouvia, mas não me parece verdade. Os olhos dele pareciam os dos bonecos com que brincava na minha infância. Sabem aqueles olhos parados, vidrados, de bonecos de peluche? Eram assim... E o corpo dele respirava com dificuldade, e eu só queria vir embora porque tinha medo que ele morresse à minha frente. Acho que não iria aguentar.
Queria muito saber se ele me ouviu.
Queria muito ter-me despedido dele em condições. Mas são tão raras as vezes em que isso acontece, não é?
Desculpem, isto começa a tornar-se o meu consultório. Prometo ser mais feliz num próximo post.
1 comentário:
Tens razao, vim ao teu blog pela primeira vez e sinto que aqui te conheço melhor, que consigo abrir uma janela para o teu interior... Não te podes martirizar assim, podes contar aqui comigo sempre que quiseres!! ;P
Beijinh0 Marisa! Sérgio
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