terça-feira, março 09, 2010

Não consigo escrever. A vontade de deixar cair os dedos nas teclas, à sorte, como dantes fazia, foi empacotada no meio dos caixotes que me roubaram há uns dias. Roubaram-me uma data de coisas, levaram sem pedir permissão, arrancaram de mim o (pouco) que tinha e fugiram. Hoje, a minha vontade de escrever, a minha inspiração, a minha imaginação e criatividade estão em parte incerta. Andam a monte, tal como eles. Eles, os ladrões.
Já me disseram - dias melhores virão, e eu respondo - pois sim, mas...e até lá? Até que a chuva pare de cair e o vento pare de soprar e as nuvens dêem lugar ao Sol...até lá eu faço o quê? Espero que apanhem os ladrões? Da maneira que anda a justiça deste país...posso esperar sentada. Sempre fui um bocado impaciente...não com as pessoas, isso não, mas com a vida. Com a vida que me acontece devagar, que me acontece só ao ritmo dos ponteiros do relógio, mas eu quero, eu preciso que ela ande cinco vezes mais rápido. Será pedir demais?...
Se pudesse pedir um presente - sei lá, agora talvez ao Coelho do Páscoa ou assim - acho que seria uma bola de cristal. Queria ver o futuro, aquele que ninguém sabe e que a Deus pertence. Queria saber se realmente nada acontece por acaso e se Deus escreve direito por linhas tortas e se se abre uma janela depois da porta se fechar. Só para ficar mais descansada, ou para sofrer por antecipação. Depois queixo-me que me aparecem cabelos brancos clandestinos...mas não interessa, eu quero é saber.
Sou curiosa. Sempre fui. Curiosa e idiota...quer dizer, tinha ideias malucas quando era pequena e brincava sozinha naquela cozinha improvisada por baixo das escadas. Tinha uma mesa que era só para mim, porque eu era a única com paciência para estar ali a falar sozinha...a inventar que tinha uma empresa - chamava-se Cofece - que vendia terrenos em todos os países do mundo. Tinha tantos terrenos que precisava da ajuda da Enciclopédia para saber os nomes de todos os países, para poder dar os dados certos aos clientes. Os clientes estavam sempre a telefonar, sempre a pedir informações...e eu atendia - "Estou sim, Cofece, bom dia" - e tinha conversas intermináveis com....ninguém.
Brinquei tantas vezes a isto que às tantas já tinha a minha pastinha preta de empresária e um monte de papéis riscados - e, claro, a Enciclopédia do meu pai -, tudo arrumadinho no armário da cozinha por baixo das escadas. Era só chegar, montar o estaminé, e estava tudo pronto para mais um dia de trabalho. Nessa altura, ainda não me tinham roubado a imaginação nem a vontade de escrever. Ainda tinha um monte de sonhos e vontades e ilusões. Só sabia uma coisa, lá no fundo dos meus 6 ou 7 anos. Queria ser professora de matemática. Mas porque é que eu não fui para professora de Matemática?
Não fui, porque não tinha de ir. Não fui, porque dei ouvidos a quem me dizia que escrevia muito bem e que tinha qualidades que fariam de mim uma boa jornalista. Que palermas...se eles não me tivessem convencido de que "tu davas uma óptima jornalista" e de que "tu escreves tão bem", hoje não estaria tão importada por me terem roubado a vontade de escrever. Se calhar estaria aí numa escola qualquer a dar aulas e a queixar-me de mil e quinhentas coisas...mas pelo menos eram queixas decentes, com destinatário e com direito a greve e tudo. Assim...assim não posso queixar-me a ninguém, só posso esperar que a minha vontade regresse, que apanhem os ladrões e me devolvam tudo. Mas da maneira que anda a justiça neste país...

1 comentário:

Fátima disse...

Olá, Marisa! Sei que neste momento não vais acreditar, mas tenho a certeza que vais ficar bem. Sempre te achei muito lutadora.
Beijinho