O que acontecerá à alma quando o corpo morre?
Morrerá também? Ou permanecerá como um sem-abrigo errante à procura do seu rumo?
Queria acreditar que, quando morrem as pessoas que amamos, elas ficam connosco, ainda que não as possamos ver. Podemos senti-las. Sentir os seus passos no silêncio da noite, na escuridão do quarto quando não conseguimos dormir. E aí elas cantam baixinho ao nosso ouvido, canções de embalar que nos levam a viajar para uma outra dimensão. A verdadeira quinta dimensão, onde somos os cinco elementos num só: água, terra, fogo, ar e espírito.
Não se afastam, os que nos amam e nos querem em Vida. A Morte não altera os sentimentos, os desejos, as emoções, as paixões. Se forem verdadeiros, não morrem também. Não podem morrer. Porque dão sentido à Vida, e a Vida sem sentido não existe, simplesmente. Podem ficar adormecidos, sim. Podem, porque outros se exaltam, se intensificam e se tornam mais fortes. Mas nunca os substituem. Não há ninguém substituível. Todos temos o nosso lugar no mundo, todos temos uma missão. E só a cumprimos na íntegra quando assim tiver que ser. Nada acontece sem razão, sem quê nem para quê.
Em pequenos, todos pensamos nisso. Como seria o mundo se eu não tivesse nascido? A minha família, os meus amigos, as pessoas que não me querem bem...seriam diferentes? Quão diferentes seriam todos? Se eu não estivesse aqui, agora, assim? Poderia ser de outra forma? Tantas questões sem resposta...
A quantas respostas temos direito? Morremos porque o corpo sucumbe à doença, ao acidente, ao cansaço, à velhice. Tudo bem, mas será só isso? O que nos anima, o que nos faz ser únicos e autênticos, será tão fraco ao ponto de sucumbir também? E não será com isso que queremos acabar quando desejamos a própria Morte? Não será com isso que estamos insatisfeitos quando achamos que já não há lugar para nós neste mundo? É em vão, então, tal pensamento. O que somos não morre nunca. Fecham-se os olhos, cala-se o coração, o sangue não corre mais nas nossas veias. Mas o espírito que nos faz ser bons ou maus, meigos ou grosseiros, amorosos ou frios, sensíveis ou inalcançáveis, esse não tem fim possível. Pertence-nos, foi-nos dado à nascença, é mesmo a única coisa que temos de nosso.
O cabelo pode cair e não mais crescer, os olhos podem cegar e nunca mais enxergar, as cordas vocais podem partir-se, podemos viver com os membros amputados, até o coração pode ser substituído. Mas não viveremos nunca sem a nossa personalidade, o nosso espírito, o nosso eu. Seríamos vegetais se assim não fosse. Então porque podemos pensar que acabaria tudo se o corpo perecesse?
Queria ser capaz de viver intensamente com o corpo e a alma. Para sentir, quando chegar o meu fim, que cumpri a minha missão. E a minha, como a de todos, é ser feliz. Esse é o objectivo número um. Há sempre, sempre, maneira de ser feliz. Só temos de procurar, vasculhar, cavar no mais fundo do nosso ser, e encontrar a chave secreta que abre a porta do sorriso sincero, do Amor sincero, do carinho puro e mágico, que toca o coração. Deixar a janela aberta e olhar para o mundo com olhos de ver, ver no mais fundo do outro-eu. (Será que existem almas gémeas?)
Tenho medo da Morte. Desde que me conheço e penso nela.
É a ideia do não-existir que me assusta, que me entristece. Todos sabem como é existir. Mas e não-existir? Ninguém sabe nem faz a mais pequena ideia. É como uma poção mágica cujos ingredientes só aos deuses segredaram a receita. Nós, os comuns mortais, ficamos de fora do círculo dos que tudo sabem, tudo podem, tudo têm. Não se pode ter tudo...
Os deuses não podem ter prazer carnal (penso eu...). Terão inveja de nós também? É porque os prazeres do corpo podem ser quase tão intensos e maravilhosos como os do espírito. É tão bom o toque, o cheiro, cruzar o olhar e perceber os olhos de alguém. Fazer o Amor... Alquimia entre os sentidos todos... O Amor não se faz só com o sexo, as mãos, as pernas, as costas, os braços, a boca, as orelhas, o pescoço, os dedos dos pés... Não basta tocar. Importa olhar, cheirar, provar, ouvir o outro. O Amor não se faz só na cama. Pode ser feito numa conversa de café, num almoço, num passeio à beira mar, numa noite de festa. Mas o Amor não é só apanágio dos amantes, é-o também dos amigos, dos parentes, dos queridos.
A vida é tão linda que até isso nos permite, a todos. Mesmo quando pensamos que não.
1 comentário:
adorei o que escreveste...
um beijo grande e continua a actualizar o blog, porque tens aqui uma fã!
ana rita
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