quarta-feira, fevereiro 27, 2008

O Funeral

Toda a gente veste o melhor que tem. Não se vê lá ninguém com roupa de trabalho.
O melhor casaco – de peles, de preferência –, o melhor conjunto de camisola e calças, que podem ser de cetim, de cabedal ou apenas do mais fino algodão. Os cabelos arranjados, apanhados, para deixar notar as feições cansadas, os olhos vermelhos e as olheiras. Resquício de uma noite passada em branco a chorar o ente que partiu...
Óculos escuros – D&G, Vogue, Rai Ban, ou da feira – são o adereço indispensável. As lágrimas, ou a falta delas, são um assunto pessoal. A menos que se tenha mesmo de mostrar sofrimento.

Mostrar. Ora aí está a palavra-chave do funeral. A cerimónia está envolta em rituais, tradições, costumes próprios, que passam pelo acto de mostrar. Mostrar a casa (sim, porque o defunto tem de ficar em casa, caso contrário é apontado o dedo à família que não o quis deixar passar os últimos momentos entre as suas paredes), mostrar as roupas, mostrar arrependimento pelas palavras mal dadas, pelas discussões sem sentido, pelo orgulho teimoso em não aceitar os erros dos outros. Hipocrisia?

Não há ocasião melhor para conhecer a família do que o funeral. Está bem, nos casamentos também dá para ter uma ideia, mas há sempre aquele que não pôde vir porque estava de férias, ou apenas porque não tinha dinheiro para comprar a prenda e inventou uma desculpa esfarrapada qualquer. Para o funeral não é preciso levar prenda. Só o sorriso mais triste, palmadinhas nas costas e as frases feitas do costume. “A vida continua”. “Todos temos a nossa hora, a dela chegou, temos de aceitar”. “Coitadinha, não merecia. Ainda no outro dia a vi, quem é que ia adivinhar?” “De uma hora pra outra não somos nada”.

Junta-se a família, os amigos que já não se viam há anos, os vizinhos com quem trocavam as cusquices nas horas mortas. Ou seja, a toda a hora.

[O momento mais temido. O caixão é transportado de casa para a carrinha funerária. Está na hora da missa e do último adeus. Chega a ser teatral, de tão carregado e tão trágico. Na verdade, já todos viram o caixão, já todos viram a defunta. Mas aquela imagem do caixão a descer as escadas aos ombros dos homens da família é pesada. Recomeçam os gritos, os choros, os lamentos que antes foram anestesiados com calmantes.]

Muito antes da hora marcada, junta-se um mar de gente para acompanhar a defunta na sua caminhada final. Uma caminhada longa, por um caminho tortuoso, inclinado, entre matas. Também o caminho para o cemitério foi cuidadosamente estudado para dar o melhor dos efeitos: a maior parte do caminho é feita a subir, dando a ideia das dificuldades que a vida nos traz, os obstáculos que temos de passar, os desafios que temos de vencer, o sofrimento que enfrentamos. Depois, uma paragem, no ponto mais alto. Chegados aqui, uma última oração. E depois a descida derradeira. Uma descida também ela acentuada, que se faz rapidamente. A descida para a morte.

Depois disso, os choros do costume, uns mais sentidos do que outros, uns mais espalhafatosos do que outros, uns mais compreensíveis do que outros.

Foi um ataque fulminante. Quinze minutos, disseram. Não podia durar mais do que isso.
Duas da manhã, noite cerrada. Passos aflitos, ambulâncias, macas, o filme todo.
De nada adiantou, voltou para casa pouco tempo depois. Já morta. Inerte. Fria.
Ninguém queria acreditar.

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O sino andava estranho. Tocava devagar. Um toque mole, sem vida, sem força. Andava a adivinhar, pois claro. Nesta terra tudo adivinha a morte. O sino da igreja, as corujas, os mochos, os cães. É a natureza a adivinhar a natureza. Arrepia, por vezes. Assusta, porque se acredita. Mas é difícil não acreditar, porque não há coincidências.

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